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novembro 08, 2009

Como morri de amor?

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  • conto
  • amor
  • paixão
A força do amor

Digo que não sei. Hoje, já morto, posso contar detalhes, mas ao certo, nem de perto, senti dor.

Começou num piscar d'olhos e, por mais que tentei o controle, tomou posse dos meus sentidos, dos meus instintos, de mim. Vagarosas eram apenas minhas atitudes; o resto pegava fogo, acelerava. Era o primeiro sintoma! Como conseguiria fugir dessa aflição? Não que eu quisesse, mas o medo existia. Ele sim queria a distância. Enfrentei-o.

Com o passar dos dias, com o pesar dos passos, o que antes só queimava transformou-se em erupção. A vontade de sempre estar ali, olhando o que até então era utopia, não era passageira. Eu contava as horas, sabia todas suas manobras, seus trajetos, perseguia seu cheiro. Mais um sintoma viria: a obsessão. E não, não era a toa.

Ainda tímido e quieto, sofria em vê-la e não tocá-la, sorriria ao tê-la e venerá-la; mas, e mais que isso, faltava coragem. A inércia era constante. Quando essa covardia vira empecilho é porque mais um sintoma está explodindo. Homens receiam tocar em suas musas, são obras feitas para admirarem, não para se terem. O sintoma do impossível entra em questão, te põe em pane.

Ao perceber que este é somente uma pedra e não um muro, o sintoma perde força... perde força... perde força e some. Curado dessa dor que nunca existiu, sua visão parece nítida, sua auto-estima supera qualquer obstáculo, não há descrença nem quem te vença. Existe apenas o óbvio: uma paixão... não correspondida. Pois bem, mesmo num mar de rosas ainda há sujeira.

Precisava declarar-me, descobrir sua consideração por mim, sobre o que faço, sobre o que sou. Um sintoma sem nome, pois não existe enquanto não houver resposta. Um sim ou um não, um talvez nunca pôde. E assim, na penumbra da noite, na caminhada sem sol, contei o que queria, fiz o que podia, a tive em meus braços. Um novo sintoma velho retornou bravejante: uma paixão, enfim, correspondida.

Desde então sou dependente, um vício prazeroso. Dez dedos nas mãos não eram o bastante, precisava de abraços de outros dedos. O perfume, de longe, não saciava mais meus desejos; eu quis ser o colar do seu pescoço, quis ser os pelos de seu corpo para todo eu me arrepiar. Senti reciprocidade, um amor verdadeiro. O mais forte e tumultuado dos sintomas, agora me matava, ia até o gozo e voltava. Nem o mais robusto coração aguentaria, é algo que vem para te levar. E em meu mantenedor, não só pulsava o sangue como também enfrentava a chagas; uma doença sensível e insensata, que é do bem, que te dá vida, mas que te mata.

Veja também:

  • Empate
  • O dono do bar
  • A fechadura enquanto dura
  • Sete dias depois de uma garrafa de vinho e lirismo puro
  • Recíproca

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