Nem olhou de volta, abriu a porta e partiu-se. Ainda preocupou-se em girar o trinco e atacar a chave pelo vão do chão. Era um sinal claro de que ali não mais voltaria. A casa fria despedia-se então do ar quente dele.
Há dias que os dias já não eram os mesmos. Desde que perdera o emprego chegava tarde da noite para meu descontento, subia cambaleando as escadas, deitava ao meu lado com o suor de álcool e ali roncava até a hora que desconheço. Ao menos, se naquelas roupas de cama não impregnasse o cheiro, seria uma lembrança a menos da situação. Mas nem por encanto algum uma ducha antes de deitar-se, o bafo da pinga ardida escovar-se, nem um ‘boa noite’ ao vento.
Talvez por fracasso de esposa - não o apoiei, nem dei força - o homem de quem falo acomodou-se nessa vida. Consciente do erro, mesmo assim, não sobrecarregarei sequer uma culpa.
Entre esbarrões nos corredores da casa, discussões rolavam pelo chão. Incontáveis, aliás. O nervosismo vinha à tona, o desgosto amargava a garganta. Não era mais possível a vivência no mesmo teto, na mesma cama. Quando há atrito, há desgaste. E, nessa troca de palavras gélidas, na agressão além da física, um outro calou-se. Parado defronte a mim nesta sala trêmula, com a porta em suas costas desejando-o, ele virou-se, nem olhou de volta... Comemorei com um choro.








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